A administradora de empresas Tonia Casarin, 30, já trabalhou no setor
privado, no público e em consultoria, mas foi a partir da experiência
como coach de carreira que descobriu o potencial da inteligência
emocional, tema que agora estuda em seu mestrado em Educação, na
Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Enquanto esquenta o debate
no Brasil sobre a importância do desenvolvimento de características
como curiosidade, tolerância e organização na escola, Tônia trabalha em
um projeto de pesquisa bem ambicioso: desenvolver um currículo de
competências sociais e emocionais que toda a criança deveria aprender.
“Eu trabalho com coaching, já desenvolvo essas competências em
profissionais e líderes, e quero continuar fazendo isso para
adolescentes e crianças, que também vão começar a trabalhar em algum
momento”, contou a mestranda em conversa por Skype com o Porvir.
A importância de habilidades como perseverança e autoestima ficou clara
para ela quando começou a estudar e pesquisar ferramentas para o
trabalho de orientação de carreira. “Vi que o que diferencia os líderes
de alta performance de outros profissionais é a inteligência emocional e
social”, completa.
Ao relembrar ainda mais para trás seu currículo acadêmico e
profissional, a mestranda consegue identificar como essas competências
foram determinantes para a própria trajetória. Oriunda de Petrópolis, no
Rio de Janeiro, Tonia é de uma família que não tinha condições de pagar
uma faculdade para ela, mas batalhou e conseguiu uma bolsa de estudos
integral para estudar na PUC-Rio. “Eu tinha um foguinho dentro de mim
que fazia com que corresse atrás das coisas, agora eu sei o que esse
fogo significa”, brinca.
Outra vez com bolsa, desta vez da Fundação Lemann, em Colúmbia, a
administradora de empresas está tendo a oportunidade de estudar, ler,
debater e conhecer experiências que valorizam o aprendizado de
socioemocionais para fazer sua pesquisa. Uma de suas atividades atuais é
um estágio na KIPP Infinity Middle School,
no Harlem, em Nova York, uma das instituições da rede de escolas
charter (pública de administração privada) que atua em regiões de
vulnerabilidade social para levar estudantes ao ensino superior. Tonia
acompanha um projeto-piloto inédito no mundo de aulas específicas de
socioemocionais.
Segundo relatou, as crianças discutem o que sentem em determinadas
situações, fazem exercícios, meditam, às vezes fazem yoga, debatem
filmes em aulas semanais. Embora a cultura emocional e social seja
presente em toda a escola, essa é a primeira vez que a inclusão dessas
atividades de forma regular na grade de disciplinas está sendo testada.
O resultado da experiência servirá de apoio no modelo de currículo
que Tonia está montando e que espera ver disseminado no Brasil. Ela
pretende mapear quais são as competências relevantes para melhorar o
aprendizado, quais as pesquisas que existem em torno delas e que podem
ser aproveitadas.
“Estar em uma Kipp School é interessantíssimo, porque você vê como
toda a comunidade – professores, alunos, funcionários e pais – se engaja
e como eles conseguem ser produtivos com o tempo, como até as crianças
ajudam nisso. Nós temos um problema no Brasil de produtividade. O PIB
cresce, mas a produtividade, não. No limite, o meu grande objetivo é
impactar a produtividade no Brasil”, diz.
Dentro desse contexto, a pesquisadora é uma defensora da criação de um
currículo único no país, que deve incluir todas as matérias normalmente
ensinadas nas escolas, como português, matemática e ciências, e as
competências para o século 21. Para ela, esses dois tipos de conteúdo
estão diretamente conectados com o resultado acadêmico porque, se as
crianças tiverem oportunidade de desenvolver habilidades não cognitivas,
vão também tirar melhores notas no colégio e transpor as dificuldades
que têm. “Essa é uma agenda relevante, que vai ter impacto não apenas na
vida das pessoas, no micromundo, mas também para o país como um todo.
Quando eu penso que isso vai melhorar a atitude das pessoas diante da
vida, quer dizer que vai fazer com que elas trabalhem mais e produzam
mais”, defende.
Fonte: Porvir
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