Até a primeira metade do século 20, para aprender a ser engenheiro
era preciso colocar a mão na massa e havia muitas semelhanças entre as
escolas de engenharia e as oficinas de ofício estabelecidas na Idade
Média, em que mestres experientes na profissão treinavam seus
aprendizes. A partir do desenvolvimento das ciências aplicadas essa
realidade mudou e atualmente a falta de prática dos engenheiros recém
saídos da faculdade é considerada um desafio a ser enfrentado pelas
universidades.
“Hoje em dia, temos um engenheiro teórico, que precisa ser colocado
no ambiente fabril para se qualificar. Isso demanda tempo, se torna
custo para a empresa e, quando se olha de forma mais abrangente, afeta a
produtividade e a competitividade da nossa indústria”, diz Luis Gustavo
Delmont, gerente de políticas para inovação da CNI (Confederação
Nacional da Indústria).
A mudança nos cursos de engenharia em todo o mundo aconteceu a partir
da publicação do “Grinter Report”, em 1955, pela Sociedade Americana de
Ensino de Engenharia, que defendia maior ênfase nas ciências aplicadas
para a formação dos engenheiros. “A 2ª Guerra Mundial foi um divisor de
águas para os cursos de engenharia. Antes, o foco era a mão na massa,
depois passou a ser a ciência”, explicou ao Porvir o professor Vinícus Licks, que está à frente do projeto de concepção da nova faculdade de engenharia do Insper, em São Paulo.
As graduações em geral fornecem uma base sólida de conhecimentos
teóricos, mas as demandas do mercado de trabalho em constante evolução e
a necessidade de formar profissionais preparados para inovar suscitam
um novo dilema nos meios acadêmicos: como aliar a ciência com o fazer?
Esse é o tema da quarta reportagem da série do Porvir “O futuro do ensino da engenharia”, que também traz artigos com reflexões de pesquisadores da Escola Politécnica da USP.
Segundo Licks, os cursos de engenharia tradicionais no Brasil formam
profissionais com boa capacidade analítica, que conseguem analisar o que
já existe, mas com pouca capacidade de síntese. “Isso significa que o
engenheiro sabe desmontar um aparelho e analisar todas as suas partes,
mas tem poucas condições de inventar um novo equipamento”, exemplifica.
Além disso, o excesso de aulas teóricas, principalmente nos primeiros
anos de curso, assusta os estudantes e é uma das causas dos altos
índices de evasão nas engenharias.
Um dos modelos usados para amenizar essa defasagem é aliar o ensino
da teoria com a prática em empresas, em programas de estágio, já durante
a faculdade, chamado de ensino dual. Defendido pela CNI para melhorar a
formação para o trabalho e reduzir a necessidade de treinamentos por
parte das empresas, o método é adotado com sucesso na Alemanha.
A Embraer é um exemplo de instituição que sente necessidade de
investir na qualificação de seus profissionais e faz isso a partir de
uma parceria com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Desde
2003, um programa de mestrado profissional com currículo desenhado em
conjunto pelas duas instituições prepara engenheiros recém-formados para
trabalhar na empresa.
A outra forma é a partir do aprendizado baseado em projetos ou
problemas, método já experimentado, pelo menos pontualmente, em algumas
universidades brasileiras. Na Escola de Engenharia de Lorena, da USP,
desde o ano passado os alunos do primeiro ano de engenharia de produção
cursam uma disciplina na qual são desafiados a entregar, após quatro
meses, um projeto real.
No semestre passado, os calouros se dividiram em grupos e
desenvolveram um projeto para produzir biocombustível a partir dos
conhecimentos que já tinham ou tiveram que pesquisar. Além do protótipo
em laboratório do sistema inventado, os estudantes tiveram que entregar
e defender para uma banca um relatório mostrando a viabilidade técnica,
financeira e ambiental do biocombustível produzido. “Esse modelo já
coloca o aluno do primeiro semestre, que normalmente fica só estudando
matemática e física, a trabalhar num ambiente de engenharia. A gente
passa a ter um estudante diferenciado em termos de maturidade”, afirma o
coordenador do curso, Marco Antônio Pereira.
Para tornar o ensino de ciências mais lúdico e instigante, o
professor também planeja a criação do Labsent, um espaço inspirado em um
laboratório visitado por professores da USP no MIT (Massachusetts
Institute of Technology) para aplicar o método de educação entre pares,
já abordado pelo Porvir em entrevista com o criador do conceito Eric Mazur.
Na sala, ainda não inaugurada, os alunos também serão divididos em
grupos, mas deverão, num primeiro momento, responder individualmente por
um sistema digital a perguntas feitas pelo professor. As respostas de
todos serão projetadas em telões, quando os alunos deverão debater as
situações problemas até convergirem para a resposta certa. “O professor
apresentará pouca teoria e só vai intervir se perceber que a turma não
está no caminho certo do aprendizado”, diz Pereira, que defende que é
preciso mudar a forma como se ensina engenharia, mas admite que nem
todos os professores estão convencidos disso e alguns ainda relutam em
abrir mão das aulas expositivas.
Isso não vai acontecer na nova faculdade de engenharia do Insper, que
ainda aguarda autorização do MEC para começar a funcionar. O projeto
inspirado em uma das mais inovadoras escolas de engenharia do mundo, a
Olin College, dos EUA, pretende construir o conhecimento dos alunos
somente a partir de projetos. Para botar a mão na massa, os graduandos
terão à disposição laboratórios de fabricação digital (Fab Lab) com
equipamentos de última geração, onde poderão inventar, experimentar e
até errar, o que é uma das premissas para a inovação. Os professores
nessa nova faculdade terão um novo papel, o de estimular e orientar as
experiências dos futuros engenheiros.
Além do método revolucionário, o currículo por competências,
construído em conjunto com a Olin, também inova no conteúdo e ambiciona
formar engenheiros que tenham conhecimentos técnicos, criativos e
comerciais. “A ideia é que os estudantes aprendam não apenas a fabricar
produtos ou soluções, mas se preocupem com os anseios dos usuários e
tenham visão de mercado”, conta o idealizador dos novos cursos.
Para aproximar os projetos dos estudantes do mercado, ele ainda
planeja conectá-los com empresas do mundo real. Isso vai ocorrer a
partir de um conselho consultivo formado por grandes empresários que
estão dispostos a auxiliar os alunos do Insper a desenvolver seus
projetos, seja sugerindo problemas a serem resolvidos, seja abrindo as
portas para eles utilizarem seus espaços ou até indicando profissionais
especializados que possam ajudá-los, da mesma forma como os mestres das
oficinas de ofício ensinavam seus aprendizes.
Fonte: Porvir
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