Passados 40 anos das primeiras iniciativas de organização da ocupação
do solo no Estado de São Paulo, continuamos a conviver com um modelo de
habitação que não contempla a proteção e a recuperação de áreas verdes e
de mananciais como de interesse social.
Criada na década de 70, a Lei dos Mananciais (Lei 1172/76), rigorosa e
bastante restritiva, foi sistematicamente ignorada pelos municípios, o
que resultou na ocupação desordenada de regiões de mananciais que
deveriam ser preservadas para a garantia da prestação de serviços
ambientais essenciais à população, como o abastecimento de água. Nos
dias de hoje, e apesar da crise da água, a história se repete. Como
resultado, temos todos os mananciais da região metropolitana de São
Paulo frágeis ou ameaçados, longe de serem prioridade na agenda dos
nossos governantes.
A Constituição brasileira define que o uso e a ocupação do solo são
competências dos municípios. Assim, os Estados, que têm uma legislação
ambiental que pressupõe o ordenamento mais restritivo, não fiscaliza
esses locais, por esta ser uma atribuição das prefeituras, que por sua
vez tão pouco demonstram interesse, capacidade técnica e estrutura para
fazer essa gestão do território como deveriam. Temos, então, as
conhecidas “terras de ninguém”, desvalorizadas do ponto de vista
imobiliário e ignoradas sob o aspecto de sua relevância ambiental.
Dada a situação, coube a sociedade, por iniciativas independentes, a
defesa desses mananciais, a exemplo do movimento que tem se mobilizado
pela criação do Parque dos Búfalos, uma das últimas áreas verdes, com
994 mil m2, na Cidade Ademar, extremo sul de São Paulo, escolhida pela
Prefeitura, Governo Estadual e Federal para construção de um conjunto
habitacional do programa Minha Casa Minha Vida. Ao custo de R$ 380
milhões, o projeto prevê a construção de 193 torres, com 3860
apartamentos e capacidade para cerca de 15 mil moradores. Tamanho
equivalente ao de uma pequena cidade do interior paulista, como
Salesópolis ou Pirapora do Bom Jesus.
O curioso é que essa é uma área de proteção e recuperação de
mananciais da represa Billings, que neste ano passou a ser vista como
alternativa para aliviar a crise da água que atinge São Paulo. Estão ali
treze nascentes que abastecem a já tão fragilizada e poluída represa. A
questão é até quando continuaremos com esse modelo de construção de
moradias a qualquer custo?
A depender da Justiça, parece que essa história começa a ser
reescrita. No dia 19 de fevereiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo
(TJ-SP) concedeu liminar mantendo a área do Parque dos Búfalos
preservada, sem construções, sob alegação dos impactos ambientais do
projeto. A Prefeitura ainda pode recorrer da decisão.
Porém, na contramão do que espera a sociedade, surge o decreto nº
55.955, assinado pelo prefeito Fernando Haddad (PT), em 27 de fevereiro,
que libera a construção de escolas, quadras esportivas, creches e
postos de saúde em áreas protegidas, como unidades de proteção integral,
parques e Áreas de Preservação Permanente.
Garantir a preservação permanente e a integridade das áreas
protegidas é dever dos Governantes e, principalmente, é a nossa garantia
de água, saúde e bem-estar. Precisamos de moradias e de equipamentos
sociais que venham a ser implantados em harmonia, equilíbrio e respeito
ao ambiente e à legislação. Mananciais são áreas de interesse e função
social essenciais.
Fonte: Envolverde
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