Mais do que espaços equipados com impressoras 3D, fresadoras,
cortadoras a laser e outras máquinas de fabricação digital, os ambientes
abertos e colaborativos chamados de FabLabs e Hackerspaces estimulam a
criatividade e impulsionam a cultura empreendedora, dentro e fora da
universidade. Aplicados ao ensino de engenharia, eles oferecem para o
estudante inúmeras possiblidades de experimentação e ampliam o diálogo
entre teoria e prática.
Com ferramentas que possibilitam o desenvolvimento de protótipos
rápidos, esses espaços ajudam o aluno a testar projetos durante todas as
fases de desenvolvimento. Se antes ele precisava investir meses
trabalhando em conceitos teóricos para, no final, descobrir que não
funcionava na máquina, em um FabLab, por exemplo, esse processo se torna
muito mais dinâmico. É possível aprender com os próprios erros e fazer
reparos no projeto a qualquer momento.
Além da agilidade, para a arquiteta Heloisa Neves, sócia do Garagem
FabLab e diretora da associação Fab Lab Brasil, o que diferencia esses
ambientes de um laboratório tradicional é essa lógica de colaboração e
abertura. “Você não tem um técnico que faz o objeto”, explicou, ao
mencionar a necessidade de oferecer autonomia para o aluno. “Ele deve
ter o poder, não apenas de trabalhar no projeto dele, mas de escolher as
ferramentas que irá utilizar. Esse tipo de horizontalidade e conexão é
que vai trazer possiblidades para criação e inovação.”
No Garagem, localizado na região central de São Paulo, não são apenas
as máquinas que facilitam o desenvolvimento de projetos. “Eu costumo
dizer que o espaço mais importante do FabLab é uma mesa coletiva, em que
as pessoas sentam e trocam ideias”, destacou Heloisa. Frequentado por
designers, arquitetos, engenheiros e outros estudantes de áreas
criativas, o espaço possibilita construções coletivas de conhecimento.
“Quando ele [o aluno] conversa apenas com os colegas que possuem a mesma
referência, ele não consegue ir além do grupo. Quando você mistura, o
objetivo é fazer com que um enxergue através da cabeça do outro.
Com a proposta de trazer esse espírito aberto e colaborativo para
dentro da academia, a faculdade de engenharia do Insper, que aguarda o
aval do MEC para iniciar suas atividades, irá contar com um FabLab à
disposição dos alunos – o espaço também deve receber a comunidade nos
chamados “open days”. Equipado com as principais máquinas de fabricação
digital, o local ainda conta com bancadas de eletrônica, furadeiras,
cortadora de isopor e outras ferramentas que ajudam a fazer reparos
rápidos e retoques finais em projetos.
“A ideia é trazer autonomia, abertura, conexão e inovação [para
dentro da universidade] igual todo mundo está fazendo”, contou Heloisa,
que desde o início do ano foi contrata para integrar a equipe dedicada
ao desenvolvimento do projeto da escola de engenharia.
Para o professor Maurício Ferreira, um dos responsáveis pela
implantação dos cursos de engenharia do Insper, essa possiblidade de
experimentação, proporcionada por esses espaços, traz inúmeros ganhos
para o ensino de engenharia. “O estudante está acostumado a não poder
errar. Se errar em um projeto, ele acredita que não vai ter uma segunda
chance. A grande questão é mostrar que ele pode errar e tem que
experimentar. Somado à isso, a gente começa a oferecer ferramentas para
que ele erre menos.”
No universo do empreendedorismo, essa cultura de errar rápido e
consertar rápido já se tornou um conceito bastante difundido. Conhecida
por lean startup, a proposta, popular entre empresas do Vale do Silício,
defende a criação de protótipos rápidos. Em resumo, é preciso testar os
produtos para aprimorá-los constantemente. E por que não trazer esse
modelo para a academia? Na Poli-Usp (Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo), há um ano o professor André Fleury, do curso de
engenharia de produção, tem aplicado esses conceitos nas disciplinas de
estatística, administração e economia.
Com métodos que se aproximam do mercado, ele incentiva que os alunos
desenvolvam projetos com aplicações reais. Dessa experiência, já
surgiram propostas bem sucedidas como um sistema de cultivo hidropônico,
que será patenteado em breve, e dois aplicativos. Todos os projetos
foram desenvolvidos no InovaLab, laboratório multidisciplinar da Poli
que oferece ferramentas para que os estudantes de engenharia desenvolvam
seus protótipos.
União entre teoria e prática
Segundo Fleury, a aprendizagem por projetos já se tornou uma
tendência consolidada na educação. “Ter uma aula expositiva sem muita
aplicação é uma das grandes dificuldades da academia”, pontuou.
Para Heloísa Neves, a possiblidade de experimentação ajuda a conectar
o estudante com as coisas que ele gosta. Além de unir a teoria com a
prática, o aluno aprende a aprender, encontrar os seus próprios caminhos
e ter uma visão mais conectada com a realidade. Segundo ela, a
prototipagem consegue acessar conhecimentos que nem sempre são visíveis
com a teoria.
Além de aplicações claras em disciplinas como processos de
fabricação, mecânica e eletrônica, a prototipagem incentiva o aluno ver e
observar exemplos práticos para outros conhecimentos como o uso
software de modelagem 3D e o estudo de cálculos para descobrir como a
máquina funciona.
O papel do professor nos novos espaços
Diante desses novos espaços, o papel do professor
passa a ser de um tutor, que ajuda o aluno a embasar e conceituar o seu
projeto. “Nenhum professor vai dizer para ele ‘faz nesse ou naquele
equipamento’. O aluno precisa entender o caminho e a metodologia que vai
levar ele para a realização do seu projeto”, defendeu Heloisa Neves.
Segundo ela, o docente não precisa ter todas as respostas. Ele deve
atuar apenas como um facilitador que estimula do aluno.
“O papel do professor é o de levar o aluno para um outro nível. No
começo ele vai fazer um monte de bobagem para aprender a usar a máquina,
mas ficar só nisso não basta. Ele precisa estimular e incentivar o
aluno a ir um pouco mais longe”, defendeu a diretora do Fab Lab Brasil.
Para Maurício Ferreira, em um ambiente de experimentação, o professor
também deve ter um discurso condizente com a prática. Quando o aluno
errar, por exemplo, “não adianta falar que está tudo bem e ficar com uma
cara fechada. Você tem efetivamente que acreditar que o erro é parte do
processo de aprendizado”, afirmou. Segundo ele, é nesse momento que o
educador deve propor uma reflexão para o estudante, incentivando que ele
busque outros caminhos para desenvolver o seu projeto.
Fonte: Porvir
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