Ajudar a projetar o futuro da aprendizagem, apoiando crianças de todo
o mundo na exploração de seu senso inato de admiração e trabalho em
conjunto. Esse é o desejo de Sugata Mitra, professor de tecnologia
educacional na Escola de Educação, Comunicação e Ciências da Linguagem
da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. Com o projeto School in the Cloud (Escola na Nuvem, em livre tradução), baseado em suas pesquisas de self-organizing systems
(sistemas auto-organizáveis), ele pretende espalhar pelo mundo
ambientes onde as crianças se engajem ativamente na busca de respostas a
grandes perguntas, para desafiar e estimular os estudantes a explorar
as suas próprias capacidades e a aprender uns com os outros.
Aos alunos reunidos nesses ambientes chamados de Soles (Self
Organized Learning Environments, ou Ambientes de Aprendizagem
Auto-organizáveis, em português) são feitas perguntas como: “O que
aconteceria no planeta Terra se todos os insetos desaparecessem?” ou “Há
mais estrelas no céu ou grãos de areia nas praias do mundo?”. O
educador, nesses casos, age como um facilitador, assegurando a
participação de todos e a veracidade das informações encontradas, já que
os grupos devem apresentar os resultados no final de cada sessão.
Segundo Mitra, o acesso à tecnologia e ao conhecimento da língua
inglesa, através de ambientes que fornecem liberdade e espaço para
alimentar a curiosidade são essenciais para a construção de um futuro
onde as crianças saberão lidar com um mundo altamente complexo e
conectado. A autodescoberta, o compartilhamento de informações e a
espontaneidade são elementos fundamentais nos Soles, que visam aflorar a
curiosidade de cada um. O objetivo final é formar indivíduos que
aprendam a aprender e sejam, portanto, solucionadores de problemas.
Pela ideia do School in the Cloud, o pesquisador recebeu o primeiro Prêmio TED
de US$ 1 milhão em 2013. Junto a parceiros (Microsoft, Made by Many,
IDEO, Universidade de Newcastle e Sundance), Mitra está montando
laboratórios em áreas afastadas onde o nível de analfabetismo é grande e
não se fala inglês. O plano é instalar pelo menos sete deles em vilas e
cidades de três estados da Índia e em escolas de dois condados do Reino
Unido. Cada oficina será administrada por um professor ou líder
comunitário voluntário. No entanto, antes mesmo de conseguir os recursos
com o prêmio, entre 2008 e 2009, 12 Soles já haviam sido estabelecidos
na cidade de Hiderabade, na Índia.
Um outro aspecto do projeto é a “Skype Granny”, ou Vovó do Skype –
voluntários que atuam como mediadores on-line em laboratórios de regiões
remotas onde não há professores ou escolas formais. O termo é carinhoso
e se refere a qualquer voluntário que se propõe a atuar como guia,
desde que tenha alguma experiência e comprometimento em relação ao
aprendizado das crianças.
Pesquisas prévias do grupo de Mitra provaram que o facilitador, mesmo
que conectado à distância, é fator imprescindível para a motivação da
curiosidade e o estímulo do aprendizado. Atualmente, seis organizações
independentes exploram a abordagem dos Soles, pelas quais as comunidades
locais têm acesso a aproximadamente 32 sessões mediadas pela internet
toda semana.
A comunidade mundial está convidada a participar do desafio de
construir laboratórios virtuais e presenciais em torno da metodologia, e
os interessados podem baixar o “kit de ferramentas” no site oficial da School in the Cloud
e criar o seu próprio SOLE. Basta reunir aproximadamente 12 crianças e
ter computadores com acesso à internet. Um ano após o lançamento do kit,
mais de 40.000 downloads foram registrados.
Os participantes também são encorajados a criar um perfil no site e
compartilhar as descobertas e dificuldades ao longo do processo. Assim,
estarão também ajudando no avanço das pesquisas sobre o método. O grupo
pretende acompanhar a evolução das crianças em todos os Soles formais e
informais espalhados pelo mundo, de maneira on-line e offline. Cada
laboratório oficial administrará avaliações iniciais e progressivas de
autoconfiança e de conhecimento de inglês.
O início de tudo
A metodologia foi desenvolvida a partir de estudos com o projeto Hole
in the Wall (Buraco na Parede) em favelas da Índia, no qual o
pesquisador pretendia analisar se as crianças aprenderiam a usar
computadores sozinhas.
Em entrevista ao TED, Mitra conta como surgiu a ideia desse primeiro
projeto. Depois de pagar caro pelo seu primeiro computador em 1987, ele
tentava descobrir como usá-lo. Ao procurar um documento no sistema DOS,
Mitra digitava “DIR” e todos os nomes de arquivos rodavam de maneira
rápida demais para serem lidos. Na terceira tentativa, o seu filho, de 6
anos, sugeriu: “Se você digitar DIR/W/P, os dados vão aparecer no
formato de uma página.” Chocado, ele perguntou como o filho sabia disso.
Ele respondeu: “Foi o que você fez ontem!”.
Foi assim que ele percebeu que as crianças podem aprender sozinhas
através de observação. Seu primeiro artigo sobre o assunto foi
claramente rejeitado pela comunidade científica, mas em 1999 ele
conseguiu permissão formal para realizar o experimento Hole in the Wall.
Um computador foi cravado na parede que separava o instituto onde o
pesquisador trabalhava da favela vizinha, em Nova Delhi, vigiado por uma
câmera.
O acesso era completamente aberto, e o computador logo se tornou uma
grande novidade entre as crianças de rua. Elas não falavam inglês e
aprenderam, sozinhas, a usar o computador e a navegar pela internet. Os
resultados animadores levaram Mitra a espalhar computadores em outras
cidades e vilas da Índia. A confirmação dos achados prévios fez Mitra
definir uma nova modalidade de aprendizagem: a educação minimamente
invasiva.
Propósito e futuro
Os três principais objetivos dos Soles são desenvolver competências
de leitura, habilidades de busca e de pesquisa e o raciocínio. Estudos
na Índia, no Reino Unido e em outros lugares do mundo demonstraram que
grupos de aproximadamente 4 crianças entre 6 e 12 anos de idade podem
aprender qualquer assunto sozinhas se tiverem acesso adequado à
internet. Elas conseguem pesquisar por respostas a questões que estão
além do que seria esperado no currículo normal, desenhando conclusões
racionais e lógicas.
Para a equipe de Mitra, os Soles não substituirão professores nas
escolas, mas podem ajudar àqueles que não têm acesso à educação básica a
sonharem com um futuro mais promissor. Áreas remotas que não contam com
bons educadores podem se beneficiar imensamente do método, já que
apenas uma conexão com a internet é necessária para levar os voluntários
a essas comunidades. Muitas vezes, esse poderá ser o único estímulo que
crianças terão para desenvolver o aprendizado.
Para a equipe de Mitra, os Soles não substituirão professores nas
escolas, mas podem ajudar àqueles que não têm acesso à educação básica a
sonharem com um futuro mais promissor. Áreas remotas que não contam com
bons educadores podem se beneficiar imensamente do método, já que
apenas uma conexão com a internet é necessária para levar os voluntários
a essas comunidades. Muitas vezes, esse poderá ser o único estímulo que
crianças terão para desenvolver o aprendizado.
Aos que já têm acesso à estrutura básica de educação, o método também
se prova útil como um complemento ao ensino tradicional e um novo jeito
de educar. “Deixar o aprendizado rolar” – é assim que os facilitadores
dos Soles devem enxergar o processo. O método permite que cada criança
aprenda em seu próprio ritmo, de acordo com o seu potencial, e o grupo
espera que o sistema gere melhora na performance acadêmica e proporcione
facilidade de adaptação a novas situações e desafios.
Segundo Mitra, repensar o currículo tradicional com base em grandes
questões e incorporar a avaliação entre pares, além do “efeito de
admiração da vovó (voluntários on-line)”, podem representar uma
abordagem de ensino completamente nova.
A maneira que o projeto trabalha para alcançar crianças em grande
escala de forma sustentável é o desenvolvimento do Self-Organized
Assessment Method (Soam – Método de Avaliação Auto-organizado), através
do qual pode-se avaliar a evolução pedagógica adequadamente. Finalmente,
para que possam atingir os locais mais distantes, os laboratórios
precisariam de energia e conexão à internet fornecidas de graça. A
conscientização e o comprometimento da comunidade também é importante
para permitir que o projeto se desenvolva de maneira livre e abrangente.
Fonte: Porvir
Nenhum comentário:
Postar um comentário